28 de junho

Foi muito louco. E olha que faz só um ano e meio que rompi completamente as barreiras e mudei radicalmente o jeito de me mover e me relacionar com São Paulo – ao contrário de muitos que estão nessa há cinco, dez, vinte anos e tiveram que passar pelos momentos mais pesados de luto pelos amigos e enfrentamento da carrocracia instaurada.

Quando atravessei a Paulista no sábado, pela primeira vez sem os tapumes, percebi minhas bochechas molhadas. Gosto de pensar que não foi culpa somente do vento frio que fazia na tarde ensolarada de inverno que precedeu um dos domingos mais memoráveis das minhas pouco mais de duas décadas. Naquele dia, voltando para casa na madrugada, fiz novamente um desvio para ver o asfalto vermelho sob a luz da lua. A inauguração oficial ainda nem tinha acontecido mas as bicicletas já ocupavam o espaço exclusivo delas, seguindo o que vinha acontecendo nas últimas semanas .

E aí chegou o domingo. Ele começou cedo e já cruzando com amigos mesmo fora do eixo do espigão. O sol brilhando, o clima ameno, as ruas vazias. Subia a Teodoro me prometendo “só uma voltinha e depois vou para casa, tenho tanta coisa para fazer e preciso me concentrar”. Ledo engano. Ao virar à esquerda para pegar a Doutor Arnaldo já começo a me deparar com a invasão de ciclistas. Quanta gente, quanta gente! O acesso ao túnel está fechado para os carros mas opto por chegar pela Praça do Ciclista. Tudo parado, um fuzuê de gente e bicicleta e mais gente e mais bicicleta e mais bicicleta e mais bicicleta… Onde é que elas todas estavam guardadas?Enfrentei uma fila indiana para conseguir entrar na Paulista.

Os vários rostos conhecidos que pipocaram aquela hora foram só uma prévia do que se seguiria por horas e horas. Não mais do que cinco minutos parada em qualquer lugar e surgiam alguéns ou bicicletas que já tinha visto  por aí. Que sentimento incrível que foi sentar no asfalto de pernas cruzadas, dividindo um lanche com os amigos e reparando naquele movimento ininterrupto de pedais e rodas e pernas e pés tocando o chão que normalmente não ousam lugares além da faixa de pedestres.

As buzinas não passavam de “blim-blins” metálicos e a velocidade era acolhedora. Lentamente as bicicletas cruzavam a avenida de uma ponta a outra, lado a lado com pessoas a pé, pessoas em cadeiras de rodas, pessoas de patins, skates ou patinetes. Crianças jogando amarelinha, fazendo picnic na rua, andando de bicicleta, aprendendo a pedalar sem rodinhas… Quantos pequenos poderão dizer que deram seus primeiros giros em direção à liberdade na mais paulistana de todas as vias?

O silêncio era sem igual. Intercalei conversas e tempos calada para desfrutar integralmente daqueles sons que não pareciam os da minha cidade – pelo menos não os daquela rua. E, na verdade, só reconheci de verdade o que significava quando, às 17h, as motos batedoras da CET ocuparam as faixas de rolagem, com o estouro ensurdecedor do motor e as sirenes agudas, relembrando as pessoas qual era o status quo vigente e empurrando-as de volta para o espaço que o planejamento urbano definiu como seu.

A violência com a qual os carros tomaram a Paulista foi simbólica. A velocidade intimidadora que te faz dar uns passos para trás e se manter longe da guia, se defender do perigo que é o trânsito motorizado. A combustão dos motores, escapamentos, freios, aceleradores e buzinas reocuparam de maneira anti-democrática o lugar que ao longo daquele dia se mostrou tão usável, tão bonito, tão necessário. Mas a lembrança continuou viva, naquela faixa de asfalto pigmentado no centro da avenida. Bicicletas continuaram desfilando de um lado para o outro, nos passos de dança que definem o tráfego e o movimento na cidade.

A política cicloviária segue junto com repensar a largura e qualidade das calçadas e o direito supremo de ser pedestre; o espaço que deve ser privilégio do transporte público; as distâncias da cidade em que vivemos; o ritmo que a metrópole impõe e o capital dita para nossas vidas. Pensar na cidade dessa maneira é, na verdade, subversão – e relembrar a Paulista nesse domingo, 28 de junho, é ver que a utopia é possível. Não existem palavras para descrever o peso que é ter que depender de números cada vez maiores de vítimas do trânsito para defender com dados um modelo que segue nessa maré contrária. Deixar que cheguemos ao colapso total, para que então a reinvenção e a inovação tenham espaço não deve ser o caso quando vidas estão em jogo. E a faixa vermelha que corta a avenida mais importante do país é sinal de que essa mudança está em curso.

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Como a mudança dos padrões de consumo tem a ver com as cidades que queremos

Desde que (re)fritei na bicicleta comecei a perceber como a “ciclabilidade” das roupas se tornou um fator decisivo naquilo que influenciava ou não a compra (ou mesmo o uso) de determinada peça. Na verdade, foi uma conjuntura de pontos diretamente ligados ao momento que vivia:
– já fazia alguns anos que morava fora da casa dos pais (então me acostumara à certa “autonomia financeira” – não era novidade ter controle total sobre o meu orçamento);
– pela segunda vez estava passando uns tempos fora do Brasil e, com base na experiência anterior, tinha sido compacta na arrumação das malas – não conseguia deixar de lembrar que tudo o que eu comprasse teria que ser carregado de volta por mim;
– já vinha diminuindo a quantidade de produtos animais que consumia por causa dos preços altos – o que é potencializado quando se faz a conversão para euros;
– lembrei da última mudança e das pilhas intermináveis de xerox acumuladas em três anos de faculdade e percebia como a maior parte dos textos e livros que lia já estavam digitalizados e eram acessíveis pela intenet – o computador tinha virado praticamente meu apêndice e sua portabilidade era o que mais importava;
– a “caminhabilidade” dos sapatos falava mais alto e a qualquer acessório que fosse à prova d’água ganhava disparado na hora da escolha;
– qualidade sempre ganhava de quantidade na hora de comprar alguma coisa (mesmo que o preço fosse três ou quatro vezes maior, tinha consciência que a durabilidade também seria proporcional).

É certo que também foi o momento em que eu não mais morava em Santos e a vida não se resumia a pedalar de chinelo e shorts para a escola, casa de amigos, curso de inglês, praia e afins. Porém, consegui ao longo de 2013 perceber que essa mudança na minha relação com o consumo era positiva (não precisei lutar para fechar as malas – nem doar uma quantidade absurda de coisas antes de voltar para o Brasil – e consegui carregar sozinha todos os meu pertences durante um mês pulando de um lado para o outro) e como queria trazer esses hábitos na mochila quando atravessasse o Atlântico de volta.

Me deparei com um armário de roupas que não usava mais e caixas e mais caixas de tralha que já não serviam. Por quê eu precisava de aquilo tudo se tinha vivido um ano sem ultrapassar os 64 quilos? Já faz quase um ano e meio desse insight e um ano e meio do processo de passar coisas para frente – ao mesmo tempo em que invisto caro em outras. Por mais paradoxal que pareça, não me furtei, por exemplo, de gastar um bom dinheiro em uma mochila que atendia à todas as necessidades e que me acompanharia todos os dias – espero que por pelo menos 5 anos. Assim como é melhor pagar um pouco mais em uma calça jeans que serve bem e é reforçada do que comprar três baratas – mas que não aguentam seis meses de uso.

Repensei nessa história hoje de manhã, quando esvaziava o quarto para a obra que (se tudo der certo) vencerá as malditas infiltrações que parecem ter vindo de brinde com a casa. Já venho mandando coisas embora tem tempo – e quase não compro nada no lugar – e ainda assim parece que não acaba. Pra quê tanto livro se a maior parte deles a gente lê uma vez e depois nunca mais? Ou, até mesmo, nunca lê? Ou se tem o PDF no HD?

Por quê ter três casacos de lã se faz uma semana de frio intenso na cidade onde moro? Ou melhor: por quê ter três casacos de lã em qualquer situação se eu só uso o mesmo, aquele que tem um capuz pra proteger da chuva? O mesmo vale com sapatos, pratos, copos, panelas… Pra quê essa profusão de objetos se não usamos todos simultaneamente?

De alguma forma isso também tangencia os hábitos diários. Notei que, me organizando, consigo viver de maneira que as compras na feira correspondem à maior parte da alimentação. Melhor do que comer carne de procedência duvidosa todos os dias e nem mais perceber o sabor que um bife tem (e refletir sobre o processo de produção), prefiro deixar para uma vez ou duas por semana optar e valorizar aquele tipo de refeição. Deixei até mesmo de comprar presentes de aniversário ou natal e me esforçar para me fazer presente quando recebo um convite – o que acaba sendo um trocadilho muito engraçado com o que realmente é importante nas relações sociais.

Retomando a questão da “ciclabilidade” das roupas: é engraçado notar que ao optar por simplificar os deslocamentos, a reflexão rebateu em outras dimensões da vida – que acabaram por ficar mais simples também. E digo isso tendo em mente que é muito fácil para alguém que sempre teve acesso a tudo (ou quase tudo) que as propagandas quiseram vender, analisar e modificar padrões que se tornaram tão identidade de uma sociedade e um tempo que é impossível dissociar modernidade e consumo. Quando nunca foi desejo ter um carro na garagem porque ele sempre esteve ali, negar essa forma de se locomover não te faz menos parte do mundo que te cerca.

No fundo, é essa insustentabilidade toda do consumo desnecessário e desenfreado, em todas as esferas, que fez com que chegássemos no esgotamento do qual estamos cada dia mais próximos – o problema não é a forma das cidades, sua massividade e protagonismo em um planeta que já é mais urbano do que nunca. É muito simples jogar algo que você não mais precisa no lixo e ver aquilo sumir em um passe de mágica dentro de um saco de plástico. Ou mesmo ocupar um apartamento com uma área absurda só para conseguir guardar tudo o que você vem carregando ao longo de uma vida de acumulação. Em tempos onde tudo pode ser comprimidos em bytes e a tecnologia parece guiar para maior rapidez e menores tamanhos, é contra-senso insistir em jeitos antigos de lidar com a informação.

Tudo bem: aí entramos na discussão do analógico versus o digital. E esse é um território pantanoso, que merece ser dissecado com calma, mantendo o processo histórico em mente e mesmo a importância da memória para ser humano – e que o capital hoje não mais se concentra nas esferas “duras” que sempre ocupou, mas sim no poder quase abstrato de gerar, transmitir, reproduzir e armazenar informação.

Enfim, a reflexão acabou indo mais longe do que imaginava – e trouxe mais dúvidas do que as que já me assolavam quando comecei o texto. Engraçado como quase sempre partir de alguma ideia que a bicicleta suscitou acaba levando para uma análise de profundidade além do esperado. Que coisa louca.

Ivan e sua volta às ruas

Ivan me viu enquanto subia uns morros pela Zona Oeste. Naquele dia brincava com a bicicleta recém-nascida e pedalava para limpar a cabeça no meio do feriado que eu havia decretado que usaria para rodar por aí.

Por mais que sempre nos falássemos, não passava do trivial. Ele é meu fornecedor de expressos duplos bem-tirados naquela imensidão do corredor das Humanas – onde uma boa dose de cafeína pode valer tanto quando um bom… Hm, deixa pra lá. Trocávamos meia dúzia de cordialidades, de “bons-dias” mais longos e conversas sobre o tempo um pouquinho mais complexas do que uma viagem de elevador comprida.

Naquela quarta-feira pós-feriado, o assunto se estendeu.

“Te vi subindo uns morros dia desses por aí. Bonita a bicicleta, einh?”

Pronto: foi o gancho que precisava. Não começa esse assunto que ele é meu ponto fraco, pensei – deixo de lado a programação que tinha para trocar uns minutos a mais de idéia descompromissada, em busca de compartilhar um pedaço das últimas epifanias.

“Cara, sério? Deve ter sido ali pela Lapa, não? Eu ‘tava dando umas voltas pra ficar com a cabeça mais clara, tinha muita coisa me atordoando. Adoro encarar ladeiras infinitas quando saio sem peso nas costas, é a melhor coisa do universo.”

Ivan me contou que adorava viver sobre duas rodas. Tinha uma MTB que era muito parceira e até vinha trabalhar com ela, mas sofreu um acidente bem feio e depois disso ficou um tanto cabreiro – sua mãe o tinha proibido de voltar a pedalar no dia-a-dia. Morava por aqueles lados da Vila Leopoldina e sentia falta da agilidade e da felicidade que o trajeto antes significava para ele.

Logo comecei a pregação – tinha andado de ônibus não mais do que cinco vezes desde o início do ano, enxergava a bicicleta como uma tremenda válvula de escape e que mudava o jeito que me relacionava com a cidade. Falei do meu lado que gostava de se perder pela metrópole nos momentos de ócio forçado, das minhas pernas que me levavam cada vez mais longe, da vontade de ir para lugares distantes do globo só contando com a força do pedal…

Em algum momento começou a se esboçar uma fila atrás de mim. Já tinha uns dez minutos que não falávamos de outra coisa, aproveitando o vazio típico do começo da tarde naquela lanchonete escura. Peguei minhas fichas, busquei meu café e me despedi.

Voltei na semana seguinte. Com o olhar sorridente, Ivan me contou que havia passado na bicicletaria, deixado a magrela para uma revisão e que, no próximo dia, já pedalaria para o trabalho. A nossa conversa o havia incentivado e ele quis transpor as barreiras auto-impostas para voltar a viver a autonomia que só a bicicleta proporciona – agradeceu o incentivo e me deu a ficha do expresso duplo que eu havia pedido.

Saí dali pensando nas últimas semanas e na quantidade de amigos que haviam me procurado atrás de dicas de modelos para comprar ou mesmo rotas para fazer de casa até o trabalho ou universidade. Alguns dias depois, acordo em um domingo com uma mensagem de uma pessoa querida, sorridente em cima de um exemplar do Bike Sampa, dizendo que “dava suas primeiras pedaladas rumo à liberdade”. Fiquei pensativa: às vezes me sinto um pouco monotemática, com o peso de que todos os assuntos levam às bicicletas (assim como todos os caminhos levam à Roma) – mas talvez seja parte essencial do ativismo dar uma mãozinha àqueles que querem quebrar seus paradigmas.

É coisa boa demais pra não ser compartilhada – espero logo menos cruzar com o Ivan subindo as ruas da Lapa.

“Não sou contra as ciclovias, mas…”: como subverter o discurso

Não tem uma discussão aberta sobre as políticas cicloviárias em São Paulo onde não surja um Fulano – que não é usuário da bicicleta como meio de transporte ou sequer faz deslocamentos curtos a pé – falando com toda a propriedade do mundo: “não sou contra as ciclovias, mas acho que elas deveriam ser melhor planejadas”.

Pois é, eu concordo contigo, Fulano: também acho que as ciclovias precisam ser melhor planejadas. O nosso modelo viário e a lógica que orientam os deslocamentos na Paulicéia vem sendo construídos e impostos desde a época do Plano de Avenidas (então bota tempo de lavagem cerebral nisso aí). Logo, não é de se surpreender que demore a aceitação do compartilhamento de vias de modo além do etéreo direito que o Código Brasileiro de Trânsito garante aos ciclistas. A construção de infraestrutura física que “invade” o espaço até então única e exclusivamente dedicado aos meios de transporte motorizados é vista como uma afronta ao paradigma vigente.

Assim, para que o conflito pelo espaço carroçável (que palavra horrível e carrocêntrica, aliás) se tornasse menor, a Secretaria de Transportes de São Paulo e a CET optaram pela implementação de estruturas cicloviárias que podem ser, em muitos casos, consideras bastante aquém do ideal. Por isso, assino embaixo do que você diz, Fulano: as ciclovias devem ser melhor planejadas.

Para começar, vamos acabar com essa história de ciclofaixa bi-direcional: qualquer técnico responsável optaria por criar estruturas separadas. Usando um exemplo zona-oeste-cêntrico: ao invés de tirar as vagas de estacionamento (que, diga-se de passagem, não são direito constitucional de ninguém) de apenas um lado da rua Artur de Azevedo, deveria-se também retirar o espaço usado para esse fim na rua dos Pinheiros. Dessa forma, as bicicletas seguiriam o mesmo fluxo do tráfego motorizado, descendo por uma rua e subindo por outra.

Em seguida, podemos falar das vias escolhidas para a implementação das ciclofaixas da discórdia: quase sempre vias locais ou coletoras, às vezes vias secundárias, raramente vias principais. Mas vejam só: estamos lidando com uma cidade cuja topografia é parte importante da sua construção. Os rios e suas várzeas cortam os morros através dos caminhos mais planos possíveis entre os pontos A e B. Oras, a melhor rota para o ciclista que segue do Butantã até a Paulista é pela Rebouças, cuja inclinação é mais suave do que as outras ruas que a rodeiam. Logo, precisamos usar o relevo das grandes avenidas a nosso favor e construir ciclovias que realmente sejam as melhores para o deslocamento de bicicleta. Ou seja: estreitemos as faixas de rolamento (ou até mesmo tiremos uma delas) para tal fim.

O último ponto que levantarei aqui diz respeito “ao perigo que é andar de bicicleta em São Paulo – uma cidade com trânsito muito agressivo, que oferece perigo aos ciclistas”. Uma alternativa que já se provou bastante eficaz em cidades como Nova Iorque é o tal do traffic calming – ou, em bom português, redução da velocidade das vias. Portanto, se o que queremos é proteger nossos ciclistas e pedestres dos perigos do trânsito, a solução está diminuir a máxima permitida na cidade inteira – já que é um absurdo pensar em circular na cidade acima dos 40 km/h (eu até falaria em 30 km/h, mas adotarei uma postura mais conservadora em prol da conciliação). É inacreditável que São Paulo venha caminhando a passos tão lentos nesse ponto.

Pois bem, Fulano: como você pode ver, concordamos com essa história de que, na polêmica das ciclofaixas, melhor planejamento é preciso. E isso passa, necessariamente, pelo compartilhamento efetivo das vias e retirada de espaço e privilégios que hoje são apenas dos modais motorizados: se você realmente apóia a implementação das políticas de ciclomobilidade e a proteção dos ciclistas, vai ter que, necessariamente, concordar comigo nos pontos acima.

Diálogos de bicicleta – o ínicio

O nome surgiu enquanto pedalava sem rumo dia desses.

Na verdade, foi uma alusão ao filme que mudou a minha vida – lá na pré-adolescência, quando assisti aos “Diários de Motocicleta” de Che e toda uma América Latina e visão de mundo se abriram para mim. Li o livro logo em seguida e me prometi duas coisas: (1) trabalharia por justiça social e (2) faria uma viagem parecida em algum momento.

Os anos se passaram desde aquela noite no cinema da rua Augusta (que na época ainda chamava Espaço Unibanco de Cinema): rodei bastante por aí, tive o privilégio de entrar em uma Universidade com “U” maiúsculo (apesar de seus seus problemas), encontrei com idéias e ideais que, de algum modo, tinham lugar guardado dentro de mim e só esperavam o momento certo para florescer.

Sociologia, sociologia urbana, cidades, gênero, políticas públicas, habitação, espaços públicos, mobilidade, pedestre, ciclista… Tudo foi se amarrando. Retomei os escritos no meio do ano passado, um pouco depois de (re)descobrir a São Paulo onde havia crescido através da liberdade que as duas rodas da bicicleta me deram.

Na verdade, sempre gostei dessa história de pedalar – as rodinhas saíram cedo e uma Caloi Cruiser, comprada por 50 reais no Guarujá, foi companheira fiel nos anos de colégio, quando usava os chinelos no lugar dos freios e sempre carregava alguém no bagageiro e outro alguém no quadro.

Falar com estranhos deve ser um dom natural, que se contrapõe à intensa predisposição à observação silenciosa – num paradoxo que eu não chego nem perto de entender. Paro nas esquinas, puxo papo, ouço conversas alheias e me interesso pelas coisas que as pessoas têm a contar: “diálogos de bicicleta” foi uma tentativa de relatar as trocas verbais (e não-verbais, por quê não?) catalisadas pelo simples ato de compartilhar o jeito de se locomover.

Conforme os escritos foram tomando corpo, percebi que não cabia mais na casa antiga – um blog antiiiiigo, criado em 2010, onde também compartilhava pensamentos aleatórios que me ocorriam e os sentimentos confusos que me assolavam. Esse espaço aparece como uma tentativa de profissionalizar – pero no mucho – ou, até mesmo, reunir as reflexões sobre cidade, mobilidade, espaços públicos, modernidade, gênero e, é claro, bicicleta. Os microcontos e crônicas sempre terão espaço cativo no lugar inspirado por eles (e neles).

Bem-vindxs.